segunda-feira, 30 de março de 2026

ENTRE RAIZES, TRAVESSIAS


Entre raízes, travessias e a força ancestral que permanece

Houve um tempo em minha vida em que escrever deixou de ser apenas expressão e passou a ser também uma forma de costurar a alma.

Foi nesse tempo que nasceu um de meus blogspots, criado como eu podia, com as ferramentas que eu tinha, mas sobretudo com a necessidade profunda de reunir, organizar e dar corpo a uma peregrinação interior e exterior que já vinha me atravessando havia muitos anos. Era uma busca pelas minhas raízes ancestrais, uma busca que não se limitava a uma curiosidade histórica, cultural ou identitária, mas que se revelava, pouco a pouco, como uma verdadeira jornada do espírito.

Naquele período, eu estava profundamente imersa em um caminho de aproximação com o universo dos povos originários. Não apenas no Brasil, mas também em uma percepção mais ampla da realidade indígena nas Américas e no mundo. Essa aproximação não se deu de forma superficial. Ela aconteceu em vivências, encontros, cerimônias, conversas, reuniões intertribais, fóruns, palestras, escutas e atravessamentos profundos. Aconteceu no corpo, no coração, na sensibilidade e também nas inquietações que esse contato inevitavelmente desperta.

Ao me aproximar desse universo, fui também me deparando com realidades muito duras. Não havia como tocar esse campo sem sentir a dimensão de séculos de violências, apagamentos, expropriações, silenciamentos e saques da alma dos povos originários. Não havia como olhar para essa história sem perceber o peso das marcas deixadas não apenas sobre territórios, corpos e culturas, mas também sobre memórias, linhagens e campos espirituais inteiros.

E esse encontro, como tantos encontros verdadeiros, não me deixou intacta.

Ao longo dessa jornada, vivi momentos de revelação, mas também noites escuras da alma. Vivi períodos de profunda inquietação interior, em que o que se mostrava fora de mim reverberava intensamente dentro de mim. Porque há caminhos que não nos permitem permanecer apenas observadores. Eles nos convocam. Eles nos implicam. Eles nos pedem verdade.

Foi nesse contexto que a escrita se tornou, para mim, uma espécie de abrigo e também de portal. Criar aquele blogspot foi uma forma de dar lugar ao que eu estava vivendo, sentindo e compreendendo. Foi uma maneira de registrar, compartilhar e sustentar uma travessia que não cabia apenas em conversas passageiras ou em lembranças dispersas. Mais tarde, outros blogspots nasceram como desdobramentos desse mesmo percurso. Cada um, à sua maneira, passou a reunir fragmentos de uma caminhada que hoje, olhando para trás, reconheço como parte de cerca de quarenta anos da minha vida.

Quarenta anos de busca, de deslocamentos internos, de encontros com a dor e com a beleza, de perguntas sem resposta imediata, de aproximações com o sagrado, de tentativas de compreender a vida para além de suas aparências.

Mas o tempo também traz outro tipo de visão.

Hoje, aos quase 64 anos, olho para essa trajetória com uma consciência mais ampla. E é aqui que entra, com grande força, o olhar sistêmico que passou a fazer parte do meu caminho e que, de certo modo, me permitiu ressignificar muitas das dores, vulnerabilidades e violências que um dia me atravessaram de modo tão cru.

Esse olhar não diminui os povos originários. Não os reduz a uma narrativa de fraqueza. Não os congela na condição de vítimas. Tampouco nega a brutalidade histórica que lhes foi imposta. Mas ele convida a ver além da fragmentação. Convida a perceber que, junto da dor, permanece também uma força ancestral imensa. Uma força que não foi aniquilada. Uma força que resiste, pulsa, ensina, atravessa gerações e segue presente na terra, nos corpos, na memória, na espiritualidade e na alma da humanidade.

Quando passamos a olhar de forma mais íntegra, não negamos a ferida, mas também já não reduzimos o ser à ferida.

E isso muda tudo.

Porque então começamos a compreender que há uma ancestralidade que não está apenas no passado. Ela está viva. Está em nós. Está em nossa base, em nossas raízes, em nosso tronco, em nossa copa, em nossa árvore da vida. Está na maneira como sentimos a terra, na forma como escutamos o silêncio, naquilo que ainda nos chama à verdade, à reconciliação e ao pertencimento.

Eu me reconheço como uma mulher mestiça, mas, para além de classificações, sempre me reconheci como alguém pertencente à terra. Esse pertencimento nunca foi, para mim, um conceito abstrato. Foi uma sensação viva, uma memória íntima, uma consciência silenciosa de que há algo em mim que sempre soube da importância das raízes, da natureza, dos ciclos, da escuta do invisível e da presença de uma força maior.

Essa força, hoje eu a vejo de maneira ainda mais clara.

Ela está em minhas raízes. Está em minha base. Está em meu tronco. Está na minha árvore da vida. E vai além daquilo que, neste mundo, os olhos conseguem ver.

Minha peregrinação em direção às raízes indígenas também foi, sem que eu soubesse plenamente no início, uma dança espiritual da minha alma com o meu espírito. Uma dança da minha alma com a alma dos meus ancestrais. Uma dança do meu coração com a Fonte.

E quando digo Fonte, não me refiro a uma única linguagem, a uma única tradição ou a uma única forma de nomear o sagrado. Refiro-me à Fonte da Criação, tenha ela o nome que cada um sentir que deve dar. Refiro-me ao princípio feminino e ao princípio masculino. Ao que está abaixo e ao que está acima. Ao que está nas profundezas da terra e ao que floresce na copa das árvores. Ao que enraíza e ao que expande. Ao que se cala e ao que canta. Ao que morre e ao que renasce a cada novo dia.

Talvez toda verdadeira peregrinação nos conduza, em algum momento, a isso: a reconhecer que o sagrado não está fora da vida, mas pulsa dentro dela, entrelaçando corpo, alma, espírito, memória, natureza, ancestralidade e destino.

Ao recordar essa trajetória e ao reunir esses fios em palavras, não desejo fixar a minha história em um lugar nostálgico. Desejo, antes, reconhecer o caminho percorrido e, ao mesmo tempo, seguir abrindo espaço para que o que ainda pede inclusão, reconhecimento e ressignificação possa continuar encontrando lugar.

Porque a força ancestral não é apenas herança. Ela também é chamado. Ela também é responsabilidade. Ela também é consciência.

Que este texto possa, de alguma forma, tocar em cada pessoa a memória daquilo que a sustenta mais profundamente.

Que ele possa recordar que há, em cada um de nós, algo que pede reconexão com as raízes, com a verdade, com a terra e com a Fonte.

E que possamos reconhecer, incluir e ressignificar tudo aquilo que for necessário, não para apagar a dor da história, mas para devolver-lhe lugar dentro de uma compreensão mais inteira, mais amorosa e mais viva.

Porque quando a alma volta a escutar suas raízes, algo em nós deixa de vagar sem nome.

E quando reconhecemos a força ancestral que nos habita, já não caminhamos sozinhos.

Liana Utinguassu

Consteladora Sistemica

Jornadas Transpessoais Terapeuticas