quarta-feira, 15 de julho de 2026

Hoje, O Céu está em Festa

 






HOJE, O CÉU ESTÁ EM FESTA


Logo cedo, escutamos movimentos no campo.


Meu esposo foi verificar.


Às sete horas da manhã, o sol já iluminava o céu azul, e os pássaros estavam em grande atividade.


Então senti:


"O céu está em festa."


Hoje, minha mãe estaria completando 100 anos.


Ela fez sua passagem aos 97.


Hoje, mãe, sei que, onde estás, certamente estás recebendo visitas.


É festa.


Tu, que sempre celebraste teus aniversários com tanta alegria.


Quando nosso pai partiu precocemente, foi como se o céu nunca mais fosse abrir.


Eu tinha dez anos. Tuas outras duas filhas ainda eram muito jovens, com quatorze e dezesseis anos.


Com meus olhos de criança, vi o nosso mundo ruir.


Naquela época, eu jamais poderia imaginar o que significava para ti, aos quarenta e quatro anos, ficar viúva e talvez precisar engolir o próprio luto, ou deixá-lo de lado por algum tempo, para cuidar de três meninas.


Eu tinha muito medo de perder-te também.


Na verdade, tinha medo de perder todos.


Mas, principalmente, de perder a ti, porque vi o quanto sofreste naquela época.


Vi também o teu empenho ao longo da vida e a tua grande força.


E é nisso que quero me concentrar hoje, nesta carta e neste dia de celebração à Vida.


Porque hoje, olhando para tudo o que aconteceu com a maturidade que os anos me trouxeram, consigo compreender um pouco mais.


Sou mãe.


Sou avó.


Teu neto José Otávio já tem 38 anos e também é pai.


E tu ainda pudeste receber o Noah pequenino em teus braços.


Tenho certeza de que ele também sentiu a tua força de Vida.


Hoje eu te vejo, mãe.


Talvez como nunca tenha conseguido ver antes.


Durante muito tempo, pensei que te dava muito trabalho. Eu era a terceira menina, quando sei que vocês desejavam um menino.


Atravessamos desafios e muitos desdobramentos que, hoje, consigo compreender com outra maturidade.


Ambas tivemos nossos equívocos.


Concordamos e discordamos.


Houve momentos fáceis e outros muito difíceis, quando eu era pequena e também depois de adulta.


Mas sempre existiu, em mim, um profundo amor e respeito por ti.


Durante muitos anos, no Dia dos Pais, eu te telefonava e dizia:


"Hoje também é teu dia, mãe, porque foste pai e mãe de três meninas."


Hoje compreendo de outra maneira.


Tu nunca precisaste ser pai.


O pai permaneceu sendo o pai.


E tu permaneceste sendo mãe.


Uma mãe que encontrou forças para seguir, mesmo atravessando uma dor imensa.


Hoje consigo honrar cada um em seu lugar.


O pai é o pai.


A mãe é a mãe.


As filhas são as filhas.


E, justamente por isso, honro ainda mais a tua grandeza.


Tu te dedicaste às tuas três filhas.


Trabalhaste por muitos anos.


Atravessaste desafios, medos, dificuldades materiais, questões de saúde, dúvidas, culpas, ritos de passagem e tuas próprias noites escuras da alma.


E, ainda assim, nunca senti que te faltasse força.


Até o teu último respiro, tu me mostraste a tua força de Vida.


Nunca senti que te faltassem a palavra certa na hora certa, a atitude, a mudança necessária, o carinho, a doçura, a sensibilidade e a leveza.


Tu me ensinaste que é possível vulnerabilizar-se sem perder a própria natureza.


Tu me dizias que eu era um sol na tua vida.


Guardo essa lembrança com muito amor.


Hoje compreendo que cada filha encontrou um lugar singular no teu coração.


E isso torna a nossa história ainda mais bonita.


Neste vídeo reuni apenas alguns registros da nossa caminhada.


Registros teus comigo, com teus netos e com aqueles que chegaram depois de nós.


Acima dessas imagens está o Campo Vivo, com os cavalos e a égua Zuma, que recebeu o teu nome em tua homenagem.


Sua filha, Amluz, carrega o teu nome ao contrário.


Assim, de tantas formas, tua presença continua caminhando comigo.


Tudo o que hoje floresce em minha vida começou porque tu e meu pai disseram sim à Vida.


Os cavalos.


O Campo Vivo.


As pessoas que As pessoas que acompanho.


Os encontros.


As palavras que escrevo.


O filho que criei.


O neto que chegou.


Cada passo que dou carrega algo da força que recebi de vocês.


De ti, carrego a doçura, a sensibilidade e uma força que não precisava deixar de ser delicada para seguir adiante.


Do pai, carrego os poucos anos em que ele esteve conosco e a força para ir para a Vida com a inteireza do masculino — algo que demorei a compreender.


Mas hoje, aos 64 anos, está tudo bem.


O que quer que tenha permanecido em minha mente ao longo dos anos já encontrou outro lugar.


O que precisava ser ressignificado foi acolhido.


Tudo foi como realmente pôde ser.


E eu te disse em vida tudo isso.


Vivi contigo alguns dos melhores momentos que uma filha poderia desejar.


Estive ao teu lado, ao meu modo, com aquilo que eu conseguia sustentar.


Aproveitei cada fração de segundo que a Vida nos permitiu viver juntas.


Sou profundamente grata pelo que existe de mais divino e precioso:


A Vida que tu me deste.


Sei que muitos pais, depois de duas filhas, talvez não esperassem receber uma terceira menina.


Mas vocês dois fizeram o melhor que podiam.


E eu busco ser o melhor de mim a cada novo dia e diante de cada circunstância da minha vida.


Em muitos momentos, olho para o que estou vivendo e reconheço:


Minha mãe me ensinou isso.


Meu pai também.


Hoje estou emocionada, sim.


Com lágrimas, sim.


Com saudade, sim.


Mas, acima de tudo, com profunda gratidão.


O céu amanheceu em festa.


Talvez os pássaros apenas celebrassem uma manhã bonita.


Talvez fosse a Vida me lembrando que celebrar também é uma forma de amar.


Feliz 100 anos, mãe.


Eu sigo em frente com a força de vocês.


Eu te amo.


E sempre vou te amar.


🌿 A Vida vem primeiro.




segunda-feira, 30 de março de 2026

ENTRE RAIZES, TRAVESSIAS


Entre raízes, travessias e a força ancestral que permanece

Houve um tempo em minha vida em que escrever deixou de ser apenas expressão e passou a ser também uma forma de costurar a alma.

Foi nesse tempo que nasceu um de meus blogspots, criado como eu podia, com as ferramentas que eu tinha, mas sobretudo com a necessidade profunda de reunir, organizar e dar corpo a uma peregrinação interior e exterior que já vinha me atravessando havia muitos anos. Era uma busca pelas minhas raízes ancestrais, uma busca que não se limitava a uma curiosidade histórica, cultural ou identitária, mas que se revelava, pouco a pouco, como uma verdadeira jornada do espírito.

Naquele período, eu estava profundamente imersa em um caminho de aproximação com o universo dos povos originários. Não apenas no Brasil, mas também em uma percepção mais ampla da realidade indígena nas Américas e no mundo. Essa aproximação não se deu de forma superficial. Ela aconteceu em vivências, encontros, cerimônias, conversas, reuniões intertribais, fóruns, palestras, escutas e atravessamentos profundos. Aconteceu no corpo, no coração, na sensibilidade e também nas inquietações que esse contato inevitavelmente desperta.

Ao me aproximar desse universo, fui também me deparando com realidades muito duras. Não havia como tocar esse campo sem sentir a dimensão de séculos de violências, apagamentos, expropriações, silenciamentos e saques da alma dos povos originários. Não havia como olhar para essa história sem perceber o peso das marcas deixadas não apenas sobre territórios, corpos e culturas, mas também sobre memórias, linhagens e campos espirituais inteiros.

E esse encontro, como tantos encontros verdadeiros, não me deixou intacta.

Ao longo dessa jornada, vivi momentos de revelação, mas também noites escuras da alma. Vivi períodos de profunda inquietação interior, em que o que se mostrava fora de mim reverberava intensamente dentro de mim. Porque há caminhos que não nos permitem permanecer apenas observadores. Eles nos convocam. Eles nos implicam. Eles nos pedem verdade.

Foi nesse contexto que a escrita se tornou, para mim, uma espécie de abrigo e também de portal. Criar aquele blogspot foi uma forma de dar lugar ao que eu estava vivendo, sentindo e compreendendo. Foi uma maneira de registrar, compartilhar e sustentar uma travessia que não cabia apenas em conversas passageiras ou em lembranças dispersas. Mais tarde, outros blogspots nasceram como desdobramentos desse mesmo percurso. Cada um, à sua maneira, passou a reunir fragmentos de uma caminhada que hoje, olhando para trás, reconheço como parte de cerca de quarenta anos da minha vida.

Quarenta anos de busca, de deslocamentos internos, de encontros com a dor e com a beleza, de perguntas sem resposta imediata, de aproximações com o sagrado, de tentativas de compreender a vida para além de suas aparências.

Mas o tempo também traz outro tipo de visão.

Hoje, aos quase 64 anos, olho para essa trajetória com uma consciência mais ampla. E é aqui que entra, com grande força, o olhar sistêmico que passou a fazer parte do meu caminho e que, de certo modo, me permitiu ressignificar muitas das dores, vulnerabilidades e violências que um dia me atravessaram de modo tão cru.

Esse olhar não diminui os povos originários. Não os reduz a uma narrativa de fraqueza. Não os congela na condição de vítimas. Tampouco nega a brutalidade histórica que lhes foi imposta. Mas ele convida a ver além da fragmentação. Convida a perceber que, junto da dor, permanece também uma força ancestral imensa. Uma força que não foi aniquilada. Uma força que resiste, pulsa, ensina, atravessa gerações e segue presente na terra, nos corpos, na memória, na espiritualidade e na alma da humanidade.

Quando passamos a olhar de forma mais íntegra, não negamos a ferida, mas também já não reduzimos o ser à ferida.

E isso muda tudo.

Porque então começamos a compreender que há uma ancestralidade que não está apenas no passado. Ela está viva. Está em nós. Está em nossa base, em nossas raízes, em nosso tronco, em nossa copa, em nossa árvore da vida. Está na maneira como sentimos a terra, na forma como escutamos o silêncio, naquilo que ainda nos chama à verdade, à reconciliação e ao pertencimento.

Eu me reconheço como uma mulher mestiça, mas, para além de classificações, sempre me reconheci como alguém pertencente à terra. Esse pertencimento nunca foi, para mim, um conceito abstrato. Foi uma sensação viva, uma memória íntima, uma consciência silenciosa de que há algo em mim que sempre soube da importância das raízes, da natureza, dos ciclos, da escuta do invisível e da presença de uma força maior.

Essa força, hoje eu a vejo de maneira ainda mais clara.

Ela está em minhas raízes. Está em minha base. Está em meu tronco. Está na minha árvore da vida. E vai além daquilo que, neste mundo, os olhos conseguem ver.

Minha peregrinação em direção às raízes indígenas também foi, sem que eu soubesse plenamente no início, uma dança espiritual da minha alma com o meu espírito. Uma dança da minha alma com a alma dos meus ancestrais. Uma dança do meu coração com a Fonte.

E quando digo Fonte, não me refiro a uma única linguagem, a uma única tradição ou a uma única forma de nomear o sagrado. Refiro-me à Fonte da Criação, tenha ela o nome que cada um sentir que deve dar. Refiro-me ao princípio feminino e ao princípio masculino. Ao que está abaixo e ao que está acima. Ao que está nas profundezas da terra e ao que floresce na copa das árvores. Ao que enraíza e ao que expande. Ao que se cala e ao que canta. Ao que morre e ao que renasce a cada novo dia.

Talvez toda verdadeira peregrinação nos conduza, em algum momento, a isso: a reconhecer que o sagrado não está fora da vida, mas pulsa dentro dela, entrelaçando corpo, alma, espírito, memória, natureza, ancestralidade e destino.

Ao recordar essa trajetória e ao reunir esses fios em palavras, não desejo fixar a minha história em um lugar nostálgico. Desejo, antes, reconhecer o caminho percorrido e, ao mesmo tempo, seguir abrindo espaço para que o que ainda pede inclusão, reconhecimento e ressignificação possa continuar encontrando lugar.

Porque a força ancestral não é apenas herança. Ela também é chamado. Ela também é responsabilidade. Ela também é consciência.

Que este texto possa, de alguma forma, tocar em cada pessoa a memória daquilo que a sustenta mais profundamente.

Que ele possa recordar que há, em cada um de nós, algo que pede reconexão com as raízes, com a verdade, com a terra e com a Fonte.

E que possamos reconhecer, incluir e ressignificar tudo aquilo que for necessário, não para apagar a dor da história, mas para devolver-lhe lugar dentro de uma compreensão mais inteira, mais amorosa e mais viva.

Porque quando a alma volta a escutar suas raízes, algo em nós deixa de vagar sem nome.

E quando reconhecemos a força ancestral que nos habita, já não caminhamos sozinhos.

Liana Utinguassu

Consteladora Sistemica

Jornadas Transpessoais Terapeuticas